CRÔNICA

Carta para um Artista Brasileiro – Por Luis Cosme Pinto

Chico Buarque fez 80 anos, recebeu tantos cumprimentos que me senti à vontade em mandar os meus

Créditos: Divulgação
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Chico, começo pelo início. Te conhecer foi presente de vó. Eu e a LIli, mãe da minha mãe, vimos juntos no sofá de casa, lá em Vila Isabel, a final do Festival de Música Popular Brasileira. O ano era 1966. No palco, você e Jair Rodrigues.

Ele, esfuziante, com Disparada. Você, mais na sua, com A banda. Que disputa!

Eu com 5 anos e minha vó perto dos 60. A gente torceu por ti. A Banda lindíssima, mas Disparada era envolvente demais e com aquela simpatia do Jair, então. Como definiu um engravatado comentarista era “um estouro”.

O público vibrou, os jurados também e no final, empate.

Quarenta anos depois, uma amiga, que viu tudo ao vivo naquele teatro lotado da rua da Consolação, me contou que no meio da cantoria surgiu um trocadilho. Deu Disparanda, gritava um lado da plateia. Nada disso, foi Bandarada, respondia o outro e assim todos saíram vencedores.

Minha avó Lili, que adorava ver a vida da janela, que nem a moça da música, me ensinou a cantar A Banda inteirinha. Ela se encantava com teus olhos verdes e esse verso: A rosa triste que vivia fechada se abriu.

Vieram anos de estupidez e truculência. A gente soube que você foi perseguido pela censura, teve que deixar o Brasil. Machucado de saudade, indignado com a repressão, você reagia como sabia, compunha um sucesso atrás do outro.

O país ainda tinha na memória os vozeirões do rádio. Por isso, os saudosistas resmungavam: “pra compor ele é bom, mas pra cantar não dá.”

Aí, na música Até o Fim, você respondeu com ironia: Por conta de umas questões paralelas, quebraram meu bandolim. Não querem mais ouvir as minhas mazelas e a minha voz chinfrim.

Tão chinfrim que os gogós mais límpidos da MPB pigarrearam para cantar a teu lado. De Bethânia a Ney Matogrosso, de Gal a Jamelão.  E ainda, Gil, Caetano, Milton.

Assim como você, só tenho filhas. Ganhei da caçula o livro Sabiás da Crônica*, que homenageia contadores de história como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros craques. Nas fotos do livro você aparece no meio deles, numa cobertura em Ipanema. Como pode? Tão jovem e já enturmado com alguns dos maiores escritores do Brasil.  Sábios sabiás.

Na minha modesta opinião foi assim também com o maestro Tom Jobim. Por mais que ele te adorasse como amigo não te aceitaria como parceiro se tuas letras não o impressionassem. E ele quase podia ser teu pai. Isso vale ainda pro Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, João Gilberto e tantos mestres que apostaram em ti, aqui e no mundo.

Aí vem a Mangueira e te convida para ser homenageado. Você foi enredo da escola de Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Cartola; também de Alcione, Beth, Zica. É pra poucos e bons.

Em 1991, outra surpresa: você lançou o livro Estorvo e quando achamos que era só uma primeira experiência, veio o segundo. Então, você não parou mais. Ainda bem.  De todos que li, meu preferido é O Irmão Alemão. 

Quando a gente se acostumou com os romances, vieram os contos de Os Anos de Chumbo. O músico consagrado que escrevia alguns livros já era autor reconhecido. Conquistou os prêmios mais importantes da língua portuguesa e está traduzido no mundo todo.

Não é toda hora que a gente escreve para um ídolo, por isso as ideias estão fora de ordem, desculpe. É que lembrei agora que no seu aniversário de 50 anos foi lançada uma coleção de discos temáticos com as facetas do Chico:  O Trovador, O Amante, O Malandro e por aí foi. Dia desses encontrei num sebo o Chico Cronista.

O Meu Guri, Pivete, O Brejo da Cruz, Vai Passar e outras fantásticas crônicas musicais. Histórias de carne, osso, amor e sangue. Um artista brasileiro a cantar o seu país.

Uma vez você revelou que faz primeiro a melodia e então se inspira para escrever, desenterra palavras. Por exemplo, escafandristas, paralelepípedo, catatônico, saracoteando. Rimas desafiadoras até pra você.

Em Amor Barato - parceria com seu amigo Francis Hime - tem namorado a “mendigar cafuné” e a implorar por uma “pechincha de amor”.  Simples e genial, como a gente gosta. Como a gente canta.

Chico, soube que você festejou os 80 anos em Paris e pra esquentar participou de manifestação pela Democracia. Sempre do lado certo.

Parabéns pelas escolhas, pela tua história e muitos anos de vida.

*Luis Cosme Pinto é autor do livro de crônicas Birinaites, Catiripapos e Borogodó, da Kotter

*Sabiás da Crônica foi organizado por Augusto Massi e editado pela Autêntica.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.