60 ANOS DO GOLPE DE 1964

"Luta armada foi um erro", diz Cid Benjamin, considerado um dos principais quadros pelo DOI-Codi

Um dos nomes mais destacados da luta armada contra o regime militar, ex-MR8 fala sobre o sequestro do embaixador dos EUA em 1969: "Foi um gol de placa dentro de uma estratégia errada"

Cid Benjamim.
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Ele nasceu no Recife e como filho de militar tinha uma vida errante desde a mais tenra idade. Foi para o Rio de Janeiro ainda muito pequeno e se tornou carioca. Cid de Queiroz Benjamin, hoje com 75 anos, jornalista, é um brasileiro que dedicou sua juventude, colocando a própria vida em risco, à luta contra a ditadura militar (1964-1985). Mas se engana quem acha que ele nasceu num lar de efervescência política e ideológica.

“Meu pai era oficial do Exército, mas não era um cara muito politizado. Tanto meu pai como minha mãe eram democratas, mas não eram pessoas de esquerda exatamente. Meu pai era um nacionalista, votou no Lott [general Henrique Lott]... Claro que se politizou muito depois com aquela coisa toda da anistia, então era uma típica família de classe média, os dois eram funcionários públicos, ele militar e ela civil, e se preocupavam muito em estimular a leitura dos filhos... É curioso que meu pai era um oficial do Exército, mas com um nível cultural acima da média dos colegas dele... Ele não era um militar típico e era um ambiente arejado que eu tinha em casa. Eu não estive na militância nesse período, no movimento secundarista. Eu até entrei no grêmio do colégio, já no científico, mas muito por conta do meu prestígio e qualidades futebolísticas... Então eu não era um cara muito politizado, essa politização só veio depois, quando eu entrei para a universidade”, explica Cid.

Quando João Goulart foi derrubado, em 31 de março de 1964 (a bem da verdade, em 1° de abril, Dia da Mentira), o adolescente Cid tinha apenas 15 anos; ele diz ter uma lembrança vaga do momento histórico, que, no entanto, não passou em branco no lar.

“Era aquilo, aquele clima em casa, ouvi a opinião do meu pai e tal, que aquilo tudo era uma merda, a questão do golpe, mas não havia um clima de mobilização ou de militância, nem da minha parte nem da parte deles, dos meus pais”, recorda.

Cid conta que já era “meio de esquerda”, ainda que não tivesse uma base sólida de conhecimento político, no período escolar equivalente ao ensino médio atual, e que apenas no ingresso na universidade, na atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é que passou a se encaixar mais no movimento estudantil.

“Eu já era amigo de um pessoal do colégio, no secundário, que era um pessoal de esquerda... Eu era também meio de esquerda, embora não tivesse o grau de formação política deles. Então, quando eu entrei na faculdade de engenharia, eu fui procurado por gente da dissidência do Partido Comunista, que deu origem ao MR8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro], e disseram ‘ah, procura esse cara lá’, até porque meus amigos tinham muito mais contatos do que eu, e eu rapidamente fui procurado, e isso já era 1967, um ano em que o movimento estudantil começa a se reorganizar, e eu então me integro com o pessoal e começo a fazer militância estudantil”, relembra o jornalista.

A entrada, de fato, para a luta contra o regime militar se efetivou após sua filiação ao grupo dissidente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e pelos dotes físicos e a habilidade nas artes marciais logo foi colocado para proteger o líder do movimento, Vladimir Palmeira, jovem que conduzia verdadeiras massas de estudantes.

“Em 1968 eu já estava filiado à dissidência, que depois viraria o MR8, e participei e fui eleito para um cargo dentro da UME, a União Metropolitana dos Estudantes... Aí foi a gestão do Vladimir Palmeira como presidente, o Franklin Martins era um dos vices, porque tinha mais quatro vices, e eu então fui um desses vices, embora ali eu não tivesse grande relevância. Como eu era campeão de judô, faixa preta, eu organizava a defesa e a segurança do Vladimir, onde ele ia ficar, onde ele não ia ficar... Era na verdade um negócio muito mais operacional do que uma coisa de liderança de massa, que uma coisa da política”, recorda.

Por ser de extrema confiança e ligado à “segurança” do movimento, o nome de Cid foi automaticamente cogitado quando as ações de resistência saíram do campo das ideias para a luta armada. Agora, tudo se tornava mais perigoso e o enfrentamento era constante. Ele cresceu dentro da organização e acabou por se converter no homem com mais ações armadas realizadas no Rio de Janeiro.

“Quando a dissidência montou um grupo pra fazer ação armada, eu fui um nome meio que lembrado naturalmente, eu era um cara de confiança, era o chefe de segurança do Vladimir Palmeira, a grande figura das manifestações, e enfim, por isso eu fui um nome lembrado... E isso acabou fazendo com que eu participasse de todas as ações do MR8 até ser preso... Houve a primeira, aí o grupo foi desfeito, depois veio outro grupo, e eu participei de todos. Na final, quando eu fui preso, eu era o responsável pelo setor armado do MR8 e era o cara, segundo o pessoal do DOI-Codi [Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna], que tinha mais ações armadas no Rio, porque eu participei, de fato, da primeira até a última, ou seja, até ser preso. Eu me transformei nisso aí, no principal quadro armado do MR8”, conta de maneira natural, sem júbilos.

Passados 60 anos do golpe, mais de 50 do auge do enfrentamento à bala entre a resistência e os militares e quase 40 do fim da ditadura militar, um Cid Benjamin hoje com 75 anos afirma categoricamente que a luta armada foi um erro, embora uma ação como o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, tenha sido certeira e fundamental no processo instalado.

“A luta armada foi um erro, já começa por aí. E o sequestro do embaixador foi um gol de placa dentro de uma estratégia errada. Foi a ação mais espetacular de todas e o interessante é que ela foi pensada inicialmente para libertar o Vladimir Palmeira, que era o quadro mais importante da dissidência, que depois se transformou no MR8, e que foi preso em Ibiúna... No dia em que ele sairia, já que tinha habeas corpus pronto e vinham soltando algumas pessoas, veio o AI-5 [Ato Institucional nº 5] e ele continuou preso. É preciso dizer que o AI-5 vem em dezembro de 1969, mas a partir do segundo semestre de 1968 a gente já estava num certo impasse. O movimento estudantil bateu no teto, foi fazendo passeata cada vez maior, maior, maior, brigou com polícia, fechou o centro do Rio, e tá... Mas como desdobrar? Não era o caso de a partir daí fazer uma insurreição e derrubar a ditadura... Então a gente bateu no teto. E já antes do AI-5 a repressão passou a mudar de ‘qualidade’, ela começa a atirar nas manifestações, começa a entrar nas universidades pra efetuar prisões, porque até antes disso eles tentavam prender os líderes nos arredores das universidades, porque ainda era um ambiente respeitado, mas isso muda, enfim, veio também um controle maior sobre a imprensa... Nós aí fomos picados pela mosca azul das ações armadas, que tiveram muito sucesso no início, porque a repressão não estava preparada, habituada a enfrentar o tipo de ação que a gente fazia... Esse cenário nos empurrou para as ações armadas... Mas a luta armada foi errada, e não falo isso como algo de princípios, até porque até a ONU, com suas convenções de direitos humanos, reconhece o direito à insurreição armada contra regimes de opressão, mas ali foi uma questão de conveniência: neste país, naquela situação, a gente não tinha a menor chance de vitória... E eu digo isso, inclusive, até pra quebrar o mito de ‘ah, ele fez o sequestro’...  Veja, foi errado fazer o sequestro, embora eu tenha orgulho de ter participado dessa geração, uma geração que se jogou por inteiro na luta, que parte dela morreu, e muitos foram torturados, uma coisa barra-pesada mesmo, então eu tenho orgulho de ter participado disso tudo, mas foi um erro a luta armada e também o sequestro”, crava o ex-guerrilheiro.

Sobre o sequestro, que virou filme, foi parar nos livros de história e povoa o imaginário de gerações e gerações de progressistas, Cid contou como a ideia foi concebida, em parceria com o amigo também jornalista Franklin Martins, que foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República no segundo mandato do presidente Lula (PT).

“Num dado momento, fazendo um ponto de rua, estávamos eu e Franklin [Martins] conversando, na Zona Sul do Rio, em Botafogo, e passa o embaixador americano, sem proteção nenhuma, só com o motorista. Umas poucas semanas antes, na Guatemala, onde havia uma guerrilha urbana muito ativa, eles tinham metralhado o embaixador americano. Aí você pode pensar assim: ‘ah, esse cara podia ser metralhado também’. Mas, assim, não era muito a nossa metralhar o embaixador... Mas na conversa minha e do Franklin surge esta história: ‘Pô, e se a gente sequestrasse esse cara e trocasse pelo Vladimir [Palmeira]?’... E então a gente começou a trabalhar essa possibilidade. Fizemos levantamentos, o embaixador saía todo dia à mesma hora, fazia o mesmo percurso, sem segurança, enfim, era uma coisa relativamente fácil de fazer... E aí resolvemos fazer, embora eu não fosse da direção nessa época, mas aí a gente consultou a direção e ela topou.”

Quando o assunto é prisão, Cid menciona sua detenção no histórico congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) de Ibiúna (SP), em 1968, que terminou com um dos atos de repressão mais famosos da ditadura militar. Mas ele salienta que ali foi uma prisão curta e “tranquila”, se comparada ao que viria depois.

“Eu tinha sido preso no congresso de Ibiúna, em 1968, mas foi uma prisão rápida, fiquei preso uma semana só. Agora, prisão pra valer foi depois, não só pelo sequestro, mas por estar fazendo a luta armada, por ser do MR8, o grupo mais ativo no Rio de Janeiro, e a repressão sabia que eu, na direção, era o responsável pelo setor armado e, individualmente, por ser quem mais tinha feito ações armadas no Rio... Isso para a repressão, à época, era uma demonstração de alta periculosidade”, diz Cid.

Ao ser questionado em que nível sofreu tortura nas mãos dos militares, o jornalista é objetivo e sucinto: “Eu sofri muita tortura, bastante".

Cid conta em que circunstâncias tomou conhecimento de que estava de fato sob risco de morte. Naturalmente, envolver-se no nível de resistência em que se encontrava era o suficiente para perder a vida, mas foi numa conversa com um militar do Exército, quando estava indo para o exílio, após o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, realizado pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que ele soube que escapara por um triz.

“Quando eu estava sendo levado para a Argélia, trocado pelo embaixador alemão, um major do DOI-Codi me perguntou assim: ‘você vai voltar, né?’... E eu disse “vou”... Aí ele falou assim, ‘só quero te dar uma informação, a de que gente igual a você, quando a gente prender agora, a gente vai interrogar e depois matar’... De fato, isso eu já imaginava. Eu quando fui preso não tinha certeza de que seria mantido vivo, embora naquele momento, abril de 1970, houve mortes, mas eram mais mortes não deliberadas, o que eles chamavam por uma expressão escrota de ‘acidente de trabalho’, então não tinha essa coisa de ‘certo tipo de militante vamos interrogar e matar’, isso não tinha, mas começou a ter após o sequestro do qual eu saí [trocado após a captura do embaixador alemão].”

Sabendo de todas as atrocidades cometidas durante aquele funesto regime de exceção, Cid conta que certa vez, muitos anos depois e já de volta à democracia, chegou a se aproximar de um de seus torturadores, após uma conversa franca na época da instalação da Comissão Nacional da Verdade, para tentar buscar pistas que pudessem levar às centenas de desaparecidos políticos do período, com o intuito de levar paz a essas famílias que até hoje não puderam enterrar seus entes e saber o que ocorreu com eles de fato.

Retrato de Cid logo após prisão, em 1970, e ficha na polícia do Rio: “UM DOS MAIS PERIGOSOS DA DISSIDÊNCIA”

“Quando um dos meus torturadores foi depor na Comissão da Verdade, já recentemente, bem depois da anistia, eu fui lá e cheguei até um pouco antes para falar com o cara... Nós conversamos e tal, e ele dizia que queria meu testemunho, ‘pô, você é um cara muito correto, legal e tal’, e eu quero dizer que eu não te torturei... Aí eu disse pra ele, e esse cara é coronel hoje, ‘vocês eram sete ou oito, eu amarrado, pendurado e encapuzado... Quem fez o que eu não sei, mas você estava no meio dos caras, vamos parar com essa história de que não me torturou... Aí, quando acabou o depoimento dele, e que ele admitiu que tinha participado das torturas, eu puxei ele pro canto e disse ‘fulano, vem cá, toma meu cartão e me dá teu telefone aí’, e ele me deu... Eu liguei pra ele e nós almoçamos duas vezes, e naturalmente eu não estava querendo ficar amiguinho dele, mas o que eu queria era alguma pista, que ele desse, pra que eu pudesse buscar corpos de desaparecidos... Imagina uma família, uma mãe... O corpo não aparece, aí ela fica com aquela esperança no Natal, no Ano Novo, no aniversário... ‘Ah, ele vai aparecer’... Tem famílias que não mudam de endereço por isso, mas enfim, foi um papo muito tranquilo de parte e ele disse ‘eu compreendo perfeitamente o que você está dizendo, mas eu não sei onde estão os corpos, e digo mais, se soubesse também não diria, porque iriam me matar’... Era um cara que já estava havia muito tempo na reserva, e de fato o que ele estava era com medo”, relatou no momento mais emocionante da entrevista.

Por fim, ao ser perguntado sobre o que pensa da decisão do presidente Lula de não permitir atos oficiais lembrando os 60 anos do golpe militar de 1964, que instaurou o regime autoritário e assassino que perdurou por intermináveis 21 anos, Cid não usa meios termos.

“Eu quero dizer antes de tudo que eu deploro a posição do Lula de não permitir que órgãos do governo participem dos atos de 60 anos do golpe. Você também luta contra o golpe de 8 de janeiro lembrando o golpe de 1964, criando uma cultura democrática e criando no País o repúdio ao golpismo, ao fascismo e à extrema direita... Então, eu lamento muito a posição do Lula, e eu não faço isso por revanchismo. Não é nem que eu queira que esses caras, torturadores assassinos, apodreçam na prisão, não é isso... Eu não tenho sentimento de revanche, e já disse isso outras vezes”, conclui Cid.

*Esta matéria faz parte da Revista Fórum digital semanal nº104, uma edição histórica sobre os 60 anos do golpe de 1964. Baixe grátis aqui e clique para apoiar e receber a Fórum semanal todas as sextas-feiras.